domingo, julho 29, 2007



então, tá.

evoluídos, racionais, inteligentes.

e há risco de apressarmos o fim das espécies... icluindo-nos.

o mundo é complexo, mas é irresistível apostar no trio poder, putaria e grana.

você já cresce dentro do sistema aprendendo que esse trio é o combustível perfeito para a liberação de serotonina.

e isso atinge todas instâncias: do macro ao micropoder.

o dinheiro é o ícone maior de uma sociedade baseada na propriedade privada -- esse velho roubo que nutre a pança do sistema.

já o poder, ou a sede por ele, sendo o mais evidente. o poder que descamba na competição, na violência, no autoritarismo, na arrogância, no racismo, etceteras mil.

saudável só a putaria saudável, um amor com tesão, pois o sexo que se mistura ao poder só favorece o sexo pelo sexo, a subjugação, o assédio, o estupro, o machismo, o ciúme, a possessividade. ou o sexo que é o da "dessublimação repressiva" da sociedade contemporânea. ou seja: você acha que tem liberdade sexual, mas na verdade sua "liberdade" é castradora, estereotipada e que rende muita grana para a indústria pornô.

amor e sexo livres, em mútua concordância, sejam quantos forem os parceiros -- e respeitemos também os solitários praticantes do "cinco contra um". e sejam quais forem as combinações... mas que prevaleca a heterossexual, senão a espécie vai para o buraco.

nossa suposta "racionalidade" é estúpida ao fazer com que a competição, falsamente "livre", paute nosso modo de viver.

o poder deve ser diluído, a célula máxima de organização deverá ser o mínimo na estrutura de administração social: a comuna.

chega de "socialismo" sem liberdade, de Cubas, Coréias do Norte, URSS, Chinas...

chega de "democracia" fajuta, a "democracia" dos poucos, aquela que mal se difarça de tão cínica e imperialista, como o grupo g-8.

chega de fascismos, nazimos, ditaduras, de esquerda e de direita... chega dessas porras!

igualdade deve ser conjugada com liberdade, com democracia direta, educação livre e igualitária para todos, sistemas de assistência social eficientes, cidades menos reféns dos automóveis e de sua fumaça escrota...

projeto de longo prazo, sem dúvida.

o fundamental seria resgatar a atitude dos sábios orientais, readaptá-la a nosso ambiente. devemos começar a revolução interior, o caminho da auto-disciplina, o sentimento de ligação com o todo, a Terra sendo vista como Gaia, organismo vivo do qual somos um tipo de apêndice. não somos o dono dessa porra!

como começar isso?

cara... aí eu não vou entrar nisso agora.

sem dúvida o momento é escroto pelo seguinte: a maioria tá satisfeita sendo gado, sendo alienado... ou tá muito fodida, ou tá pouco se fodendo, ou tá ganhando dinheiro com essa porra, ou é filho da puta mesmo, ou gosta de ser fascista porque tem orgasmo com isso.

no momento eu caio de cabeça nas zonas autônomas temporárias, me cerco de gente cabeça boa, procuro me envolver em coisas que excedam o espaço do meu umbigo, busco a diversão das coisas boas que podem estar ao meu alcance.

o refluxo não significa silêncio. a propaganda e a ação -- por mínimas que sejam -- devem continuar porque os conceitos estão colonizados pelos significados que favorecem o sistema. o embrutecimento de bilhões está garantido por um sistema de educação propositalmente esculachado. eu finjo que ensino, você finje que aprende!

as únicas coisas bem socializadas são as porradas de cacetete e a miséria.

quem deforma é a estupidificação via satélite, é a manutenção do estágio zé-povo... daí que ouço um amigo camelô, no ponto de ônibus, dizendo a "crássica": "Bão era no tempo da ditadura!".

então faz endurecer e senta nela...

eu tô fora.

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terça-feira, janeiro 23, 2007




(((A "dieta" neoliberal que leva fome à África)))

Em 2005, uma crise de alimentos abalou Níger. De uma população de 12 milhões, 3,6 milhões sofreram com a fome e 800.000 crianças enfrentaram a desnutrição. Ativistas alertaram que a fome não foi causada pela seca. "Esta é uma fome estrutural. Uma fome permanente", disse o jornalista Moussa Tchangari. "Ela foi causada por 20 anos de programas de ajuste estrutural".

Segundo o Famine Early Warning System (FEWS), financiado pela USAID (United States Agency for International Development), a produção agrícola ficou apenas 11% abaixo da média de cinco anos e foi, de fato, mais alta que os níveis de 2001-02, quando não houve crise de alimentos. O problema real, de acordo com o FEWS, foi que os preços dos alimentos subiram entre 75% e 80%.

Moussa Tchangari diz que: "A raiz do problema é que por mais de 20 anos as políticas neoliberais têm sido impostas a nosso país. As instituições financeiras internacionais estimulam a agricultura de exportação, de modo que agora não temos produzido o bastante para alimentar a população."

Como muitos países africanos, Níger foi pressionado pelo FMI, pelo Banco Mundial e pelas agências de desenvolvimento da União Européia para que desmantelasse os serviços públicos e que substituísse sua agricultura de subsistência por uma agricultura de exportação.

Em meio à fome, Níger continuava a exportar comida. Milhões de famintos e dezenas de milhares de crianças morriam enquanto os mercados estavam cheios de comida que eles não tinham recursos para comprar.

Nos primeiros meses da crise, o governo do país e o Programa de Combate à Fome das Nações Unidas se recusaram a distribuir comida para o povo porque isso interferiria no livre mercado -- segundo eles, uma condição necessária para Níger sair da miséria.

Tchangari acredita que os problemas de Níger foram causados exatamente por esse modelo de desenvolvimento e que o país necessita de um método diferente. "A solução é implementar uma política agrícola que possa assegurar a auto-suficiência de alimentos. Isso é possível... É uma questão de vontade política."

Veja/baixe um vídeo sobre esse tema.

(((Tradução livre de artigo originalmente publicado em Big Noise Films))

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sexta-feira, dezembro 22, 2006



I.

sim... é natal.

no tal
natal
notas de real.

ruas intransitáveis, lojas abarratodas, engarrafamentos sufocantes.

nos shoppings, velhas senhoras com bolsas coloridas, crianças barulhentas, filas enormes, banheiros cheios de merda...


2.

já podemos ouvir os sinos das renas...

papai noel acorda às 5h, mora em um município da baixada fluminense.

logo cedo pega a kombi lotada para o centro da cidade. lá pega um busum pro centro do Rio. a essa hora o coletivo já está cheio e ele tem de encarar a viagem em pé.

no centro, pega um metrô (igualmente cheio) pra zona sul.

a risada inconfundível de papai noel anuncia sua chegada: rou, rou, rou...

no shopping, veste sua roupa tradicional.

no segundo piso, perto da praça de alimentação, ele faz o seu plantão diário.

e ele fica ali, horas e horas, recebendo criancinhas mimadas da burguesia carioca. bundas e mais bundas sentam no seu colo. moleques escrotos enchem seu saco. madames esnobes dirigem as fotos com autoritarismo: "ô, meu senhor! dá pra ficar mais pra trás! assim não aparece o pedro lucas!".

anoitece e ele não tem noção disso, pois os shoppings são feitos para as pessoas perderem a noção do tempo. não há tempo e a exigência é ficar sempre em movimento. são poucos os locais de parada, de descanso. se há descanso, ele é capitalizado em lucros: na praça de alimentação, pais e filhos sentam seus traseiros roliços e devoram a carne de minhoca do mc'donalds.

no final do dia, papai noel está todo quebrado. vai voltar pra baixada. seu trenó é da ciferal e sua rena se veste com camisa azul de botão e calça de tergal.

rou, rou, rou...

é natal!


C.

pois é... o natal.

paira no ar uma densa neblina de consumismo e futilidade.

símbolos artificialmente transplantados para a realidade local.

o haiti e o pólo norte são aqui.

no cerne de toda a hipócrita ladainha sentimental, o interesse mal disfarçado da indústria, do comércio, das multinacionais.

e o mundo da propaganda vira o local apropriado para as utopias. o mundo feito pelos publicitários é perfeito.

um mundo que não parece tão "utópico", afinal, pois está inserido no nosso velho modo de produção/modo de ser capitalista: não precisamos transformar absolutamente nada!

um mundo em que os bancos não se parecem com bancos; em que celulares são aparelhos indispensáveis à sobrevivência da espécie; em que se vivem "beautiful moments" pagando por caros planos de saúde.

curioso que quando alguns se arriscam a falar de sociedades mais justas (realizáveis mediante a transformação/implosão de um modo de ser/produzir simultaneamente suicida e genocida) são logo taxados de "lunáticos", "cabeças de vento". suas utopias são relegadas ao ridículo, ou embaladas à vácuo para consumo espetacularizado: "é chique ser rebelde".

parece que os revolucionários, os poetas, os filósofos, os que buscam tranformações devem virar publicitários. a publicidade é o lugar da utopia, do sonho, do projeto de sociedade ideal. pois no mundo da publicidade não há miséria, não há favela, não há desigualdade social, não há racismo, não há autoritarismo...

no mundo da publicidade, um banco não é uma instituição historicamente afinada aos interesses de uma elite, disposta a extorquir somas de seus clientes com taxas abusivas, com juros exorbitantes; as empresas de telefonia não estão a todo instante desrespeitando o consumidor, passando por cima de uma fiscalização frouxa e cobrando os olhos da cara para as pessoas se comunicarem; e um plano de saúde não fere um princípio básico que toda sociedade deveria seguir: atendimento médico-hospitalar sendo direito de todos, tudo de graça e com qualidade.

o pior é que o alcance dessa idéias é fenomenal. as pessoas assumem todos esses valores, entoam o hipnótico mantra do consumismo e fazem todo o resto do serviço sem reclamar. nenhum revolucionário conquistou tantos militantes!

é isso, revolucionários! para serem levados a sério, entrem para o mundo da publicidade: o único lugar onde vocês podem sonhar os sonhos mais estapafúrdios e ainda ganhar dinheiro com isso!

rou, rou, rou...


qUATRO.


encerro este post natalino com uma bela canção de natal.

abaixo vai a letra e um link pra quem quiser acompanhar o som/imagens.

é pra cantar com força, com espírito de natal!

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"Papai Noel Velho Batuta"
(Garotos Podres)

PAPAI NOEL filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

(repete primeira estrofe)

Mas nós vamos sequestrá–lo
E vamos matá-lo
Por quê?

Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal

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Vídeo

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segunda-feira, outubro 30, 2006




1.

a "democracia", ah... a "democracia".

o "espetáculo da democracia"...

enchem a boca, marqueteiros e politiqueiros, cientistas políticos e comentaristas de grandes jornais, intelectuais-xamãs do consenso fabricado... no fundo a mesma corja de burgueses, das elites, que devem a todo momento evitar o movimento sempre perigoso da massa de despossuídos que o sistema cospe diariamente.

me perdoem se minhas referências são repetitivas, mas devo lembrar Castoriadis, sob pena de não atribuir justamente um pensamento a quem lhe pertence: eles habilmente devem nutrir todo esse "imaginário social" para justificar sua permanência e seu fechamento a uma intervenção mais direta.

contudo, ainda que boa parte das "instituições explícitas de poder" conte com o auxílio daquelas instituições de poder que implicitamente estão presentes nos que compõem a sociedade (o que explica a legitimidade do que aí está e o imprescidível apoio da opinião pública), ainda assim irrompem tensões que um imaginário apenas não é capaz de debelar.

ainda existem aqueles que insistem em, a todo momento, rasgar o véu...

o Estado e seus bibelôs queridos vêm à tona sempre que algo foge do controle, das regras do jogo instituídas. policiais, máfias, paramilitares e fascistas de toda a hora, mesmo que mal-disfarçados de democratas, vêm para cometer suas atrocidades, suas sujeiras, algo que vem sistematicamente, historicamente, sendo praticado pelos herdeiros daquela ordem que foi revolucionariamente instituída, da França aos Estados Unidos, em fins do século XVIII.

a burguesia tem de fechar a caixa de pandora que ajudou a abrir ao propagar os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade; de liberdade de imprensa e reunião; dos direitos do ser humano, etc... porque, afinal de contas, sustentou seu castelo de bonitas idéias num alicerce de podridão: o modo de produção (de vida, de existência...) capitalista.

o que ocorreu com o jornalista do CMI não é nada novo: é irritantemente velho. se para eles morreu a história, morreu o conflito de classes, morreu a luta dos trabalhadores... tudo taxado de "ultrapassado", "anacrônico", tratados como velhas novidades do museu fetichista da pós-modernidade, onde tudo vira espetáculo, onde tudo é enlatado, onde tudo é desistoricizado, destituído de seu conteúdo explosivo... aí, quando tudo na "sociedade do espetáculo" (Debord) falha, vêm os velhos métodos que não morreram, que não saíram de moda para as elites cínicas: assassinatos, torturas, pogroms, campos de concentração, censura a uma mídia independente...

vou parar por aqui. estou indignado, movido pelo ódio, "rage against the machine" (não à-toa a banda é tão boa...).

o meu papel aqui é divulgar. é pressionar.

e ir às ruas. manter acesa a memória da luta. celebrar a resistência em Oaxaca.

que aqui no Rio haja mobilização... é o que espero.

solidariedade e apoio mútuo...

mais informações abaixo.

repassem, protestem, exijam.


2.

(notícia recebida por e-mail):

Jornalista da imprensa independente e ligado a movimentos sociais
brasileiros é assassinado no México

Por favor, repasse com urgência.

Prezados amigos e amigas,

Nesta sexta-feira, dia 27 de outubro, recebemos a triste notícia do
assassinato do amigo, jornalista e voluntário do Centro de Mídia
Independente Brad Will por forças paramilitares na cidade de Oaxaca, no
México. Chamamos a todos os defensores de uma imprensa livre e
independente e aos movimentos sociais brasileiros para uma manifestação
no consulado geral do México em São Paulo, na próxima terça-feira, dia
31 de outubro, às 13 horas. O consulado está localizado na Rua Holanda,
274, cerca de 6 quadras da esquina da Avenida Brasil com a Rua Colômbia
(continuação da Augusta).

Brad era um jornalista americano, importante colaborador da imprensa
independente no Brasil e na América Latina e aliado dos movimentos
populares. No Brasil, por exemplo, sua colaboração foi decisiva para a
denúncia do massacre contra os sem-teto da ocupação Sonho Real em
Goiânia. As imagens que registrou da ocupação e do ataque sofrido pelas
forças policiais do estado de Goiás chamaram a atenção do mundo para a
situação dos sem-teto.

Brad também cobriu os mais importantes processos sociais do continente
nos últimos anos, com vídeos e matérias sobre a rebelião dos Aymara na
Bolívia, as assembléias e piquetes na Argentina e a "Outra Campanha" no
México. Mas foi seu último trabalho que o levou à morte.

Brad estava cobrindo o processo de resistência e repressão à Assembléia
Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), uma coalizão de grupos e movimentos
sociais formada após a greve dos professores naquela histórica cidade
mexicana. A APPO pede a renúncia do governador do estado de Oaxaca
Ulises Ruiz Ortiz, acusado de corrupção e fraude eleitoral e defende a
substituição do governo do estado por assembléias populares.

Brad estava cobrindo uma barricada organizada pela APPO quando ela foi
atacada por paramilitares ligados ao governo. Fotos de um jornalista do
jornal local El Universal e as próprias imagens registradas por Brad
antes de morrer permitiram a identificação dos assassinos.

O governo mexicano está utilizando a morte de Brad Will como motivo para
o envio de tropas federais à cidade e a violência contra militantes da
APPO por paramilitares tem aumentado nos últimos dias. Assim, pedimos a
todos para manifestarem-se com urgência, seja participando do ato desta
terça-feira, seja escrevendo às autoridades mexicanas pedindo imediato
cessar das violações dos direitos humanos contra a população civil de
Oaxaca, seja escrevendo às autoridades brasileiras exigindo uma firme
posição do governo brasileiro condenando o massacre de civis naquela cidade:

Exmo. Sr. Andrés Valencia Benavides
Embaixador do México no Brasil
embamexbra@cabonet.com.br
SES - Av. das Naçôes – Qd. 805 - Lote 18
CEP 70412-900
Brasilia, D. F.
Tel. (55-61) 3244.1011 / 3244.1211 / 3244.1411
Fax 3244.1755 / 3244.3866

Exmo Sr. Celso Amorim
Ministro de Relações Exteriores (MRE)
celsoamorim@mre.gov.br
Esplanada dos Ministérios - Bloco H
CEP: 70 170-900
Brasília-DF
Fone: 3411-6801
Fax: 3411-6993

Video de Brad filmando a barricada da APPO e sua própria morte:
http://video.indymedia.org/en/2006/10/542.shtml

Vídeo com imagens de Brad denunciando a violência contra os sem-teto em
Goiânia:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/04/315460.shtml

Última matéria escrita por Brad para o CMI Nova Iorque:
http://nyc.indymedia.org/en/2006/10/77760.html

Outros consulados do México no Brasil:

CONSULADO GERAL DO MÉXICO NO RIO DE JANEIRO
e-mail: comexrio@domain.com.br
Cônsul: Juan Andrés Ordoñez Gómez
Praia de Botafogo 242, 3o Andar.
Botafogo
CEP. 22250-040 Rio de Janeiro, RJ.
Tel.: (0xx21) 3262 3200
Fax: (0xx21) 3262 3211

CONSULADO HONORÁRIO DO MÉXICO EM BELÉM
Cônsul: Dr. Paulo Brito Chermont
e-mail: chermontadv@uol.com.br
Avenida Conselheiro Furtado 585
Casa A, Bairro Batista Campos.
CEP. 66025-160 Belém – PA
Tel.: (0xx91) 3223 8967
Fax: (0xx91) 3241 7407

CONSULADO HONORÁRIO DO MÉXICO EM FORTALEZA
Cônsul: Dr. João Soares Neto
e-mail: cmexico@planos.com.br
R. São Paulo No. 1941
Jacareacanga
CEP. 60030-101 Fortaleza – CE
Tel.: : (0xx85) 3238 3800
Fax: (0xx85) 3238 3800

CONSULADO HONORÁRIO DO MÉXICO EM MANAUS
Cônsul: Sr. Armando Clovis Prado de Negreiros Mendes
e-mail: chmexico@novidade.com.br
Rua Fortaleza 585
Adrianópolis
CEP. 69057-080 Manaus – AM
Tel.: (0xx92) 3663-5050
Fax: (0xx92) 3663-5077

CONSULADO HONORÁRIO DO MÉXICO EM RECIFE
Cônsul: Dr. Antônio Fernando de Castro Dubeux
e-mail: iaradubeux@yahoo.com.br
Rua Aquidabã, nº 20, aptº 1401
Boa viagem
CEP 51030-280 Recife Pernambuco
Tel.: (0xx81) 3083 1760/1430
Fax: (0xx81) 3338 1979

CONSULADO HONORÁRIO DO MÉXICO EM SÃO LUÍZ
Cônsul: Dr. Adalberto Ribamar Barbosa Gonçalves
e-mail: goad@elo.com.br
Rua dos Afogados 107
Centro
CEP 65010-020 São Luiz – MA
Tel.: (0xx98) 3232 6732
Fax: (0xx98) 3232 6232

Agradecemos a mais ampla divulgação desta mensagem.

Pablo Ortellado

Centro de Mídia Independente
São Paulo


Brad
por Pablo Ortellado

Na tarde desta sexta-feira, dia 27 de outubro, recebemos com muita
tristeza a notícia da morte do nosso companheiro Brad Will.

Eu conheci o Brad em algum momento em 2002 nas mobilizações do movimento
de resistência global. Brad tinha sido despejado de uma ocupação em Nova
Iorque, processou a polícia por abuso e com o dinheiro que recebeu
empreendeu uma longa viagem pela América Latina. A esta viagem em 2002
depois seguiram-se outras e ele acompanhou de perto nos últimos anos
todos os acontecimentos importantes do continente: as mobilizações
contra os organismos multilaterais em Fortaleza e Quito; a resistência
do movimento sem-teto em Goiânia; as mobilizações dos Aymara em El Alto,
na Bolívia; os piquetes e as assembléias populares na Argentina e,
finalmente, a comuna de Oaxaca, no México.

Brad estava perseguindo a história do nosso continente e sua morte,
aparentemente por forças paramilitares que reprimiam a comuna, é de uma
injustiça dolorida. Toda morte parece inexplicável para os que ficam,
mas a morte de um jovem, a morte por assassinato e a morte pelos ideais
é especialmente imperdoável.

A morte de Brad não deixa de ser digna das opções que fez. Brad morreu
tentando mostrar ao mundo o que a mídia empresarial não mostra; morreu
apoiando os companheiros de Oaxaca que estão construindo a democracia
direta; morreu na América Latina que é onde estavam as suas esperanças.
Se pudesse ter escolhido um lugar, uma causa e uma circunstância,
possivelmente teria escolhido morrer assim: em Oaxaca, na América
Latina; na defesa do processo revolucionário e com uma câmera na mão.

Saudades, camarada, saudades!

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sexta-feira, outubro 06, 2006


I.

porcos, porcos, porcos capitalistas.

continuam a nutrir sua lógica ilógica,

sua racionalidade irracional,

seu modo de vida suicida.

um imaginário social arraigado, que de certa forma anda por si só, haja vista a concordância da maioria silenciosa.

alta capacidade de reprodução, de convencimento... capital: uma relação social.

porcos no céu...


II.

quando bate a onda nostálgica... fodeu.

e saudade do que nunca viu?

estou viciado nessa parada de baixar discos.

é extremamente prático, relativamente barato e, numa só tacada, burla e alimenta os porcos que enchem a pança.

burla de leve a indústria fonográfica, que perde alguns milhõezinhos na venda dos discos.

mas ainda assim alimenta com bilhões os mesmos barões da indústria fonográfica, inseridos no grande banquete da indústria cultural, que agora lucram com softwares, computadores, tocadores de mp3, provedores e outras milhares de coisas.

ou não se ligaram nas mega-fusões tipo aol-time-warner?

não jogam pra perder...

prova que nada é tão simples... tudo está marcado por complexidades... e a luta só pode se dar nessa teia de contradições.


III.

como já comentei, ando consumindo muito uma droga chamada Pink Floyd.

altamente psicodélica.

deve ser a tal onda nostálgica.

há ondas, marés...

e essa onda de baixar discos está me levando a coisas antigas, mofadas nas fitas k7 perdidas (ou vice-versa).



IV.

mais uma coisa sobre contradições: o resultado das urnas.

vejam quantas abstenções, votos nulos e brancos.

se não me engano o número dos que não escolheram ninguém para presidente tirou o 3º lugar. ficou na frente até da Heloisinha Paz e Amor.

no caso de senadores e deputados, grande percentual para nulos/brancos.

não foi à-toa a grita dos porcos da política, da justiça, do legislativo... os atores canastrões que interpretam bem seus papéis pseudo-racionais nesse sistema irracional. eles gritavam: "não abram mão do seu direito", "o país está em suas mãos"...

qualquer pessoa um pouco mais exigente/consciente enxerga que o sistema democrático burguês, tal como está, não faz representar verdadeiramente a vontade da coletividade. é centralizado, é viciado, é construído para absorver impactos e debelar a radicalização da própria democracia.

o ruim é que muita gente elegeu o nulo/branco/abstenção como um ato de revolta localizada ou passageira... ou pior: como expressão de um niilismo total, sem cagar e andar pra nada, num individualismo selvagem que só deixa os porcos mais gordos.

no final das contas, ainda permanecem na lógica da democracia representativa, não enxergam outras formas de organização social, de política, de modo de vida. carecem de mais (contra)informação, haja vista toda a mistificação feita pelos porcos-intelectuais e porcos-especialistas do porco-consenso.

e grande parcela da esquerda que ainda se diz "revolucionária" não abre mão de antigas convicções teóricas. e muitos, sejamos sinceros, gostam mesmo do poder, têm orgasmos com a cadeira de rei, têm vaidades com a faixa presidencial, com o Estado. eles amam o culto à personalidade e sempre dispõem de um bando de porquinhos teimosos e barulhentos que adoram devorar cartilhas vermelhas. oinc, oinc, oinc...



V.

"Os homens estão dispostos a ser prestáveis até ao momento em que têm poder". (Vauvenargues)

"Os detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infabilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade". (Pasternak)

"A ânsia de poder não é originada da força, mas da fraqueza". (Erich Fromm)

"A política... há muito tempo deixou de ser ciência do bom governo e, em vez disso, tornou-se arte da conquista e da conservação do poder". (Bianciardi)


VI.

acabo de ouvir "A saucerful of secrets"...

é curioso por estar na transição: saída de Syd "porraloca" Barret, entrada de David Gilmour (se não me engano, foi o primeiro LP com o Gilmour...). dá pra notar o pé no psicodelismo dos anos 60, com uma levada rock característica, e a presença das primeiras longas viagens musicais que marcariam a banda nos anos 70.

e saudades também do que nunca vi: os piratões, os "bootlegs", que eram difíceis, raros, caros...

filé...



VII.

se o momento realmente não é de derrubada dessa estrutura complexa-sólida, não vejo por que não propagar a idéia de uma outra política já neste momento, no contexto mesmo das indignações diante da política-cênica do Estado liberal.

as tais ondas de corrupção estão aí desde os tempos de colônia... e vão continuar tragando todo mundo e alimentando o teatro da imprensa "indignada", guardiã das sagradas "instituições democráticas" e do "Estado de direito" que tanto agradam aos magnatas da comunicação e sustentam o nível de vida pequeno-burguês dos jornalistas.

todas as tímidas conquistas rumo a esta "democracia" que aí está foram obtidas depois de muita pressão. todas as instituições que aí estão são produtos sócio-históricos, não caíram do céu, nem têm atestado de imortalidade.

assim como surgiram, podem ruir... historicamente.

propor/propagandear a radicalização/criação de novos mecanismos de participação faz sentido, mesmo que as tais "condições objetivas" nos mostrem, de fato, que é coisa de difícil implementação imediata.

mesmo assim, prefiro lutar com os debaixo... e à esquerda.

VIII.

bom... se alguém aí gosta, vai um presente.

um link pra links que levam a... 60 discos do P.F.!

http://sharez.cn/article.asp?id=11012

aproveitem! viciem-se também!


IX.

será que estou sendo chato demais com o sistema político atual?

será que também não é necessário utilizá-lo como mais um espaço de luta?

sim... acho que deve ser usado.

em determinadas situações, taticamente falando, pode servir para implementar leis e práticas menos injustas.

em alguns casos,devemos agir de modo realista (e me refiro especificamente aos anarquistas, os mais críticos em relação ao sufrágio universal burguês) e até usar o voto ou alguma outra forma de intervenção direta no Estado.

comentava com um amigo sobre a opção de voto de grupos anarquistas dos EUA para Al Gore, candidato democrata há pouco tempo. foi algo tópico, localizado, para deter a escalada do porco-fascista Bush... ninguém estava iludido que o sistema iria se modificar com Gore... nenhum deles deixou de condenar a estrutura como um todo. era uma opção tática contra um cenário pior.

outro exemplo foi a polêmica participação dos anarquistas espanhóis no governo republicano durante a Guerra Civil (1936-39). não conheço bem os meandros da história, mas suponho que tenha sido uma opção frente ao avanço do fascismo. uma opção nitidamente tática.

obviamente, cabe discutir caso a caso... sem sectarismo.


X.

o engraçado é que eu tinha certas implicâncias com as músicas muito longas, de mais de dez minutos...

era a aborrecência punk... ouvido muito treinado com Ramones e Dead Kenedys em churrascos em que palcos eram muretas de varandas e o mosh era para uma platéia de meia dúzia de bebões que mal te seguravam.

outra coisa também era que o P.F. foi meio negligenciado quando o assunto era os 60/70. eu estava lá ouvindo sempre o Hendrix, o Velvet, The Who, Stones, Stooges... P.F. só de vez em quando.

agora noto que é impossível qualquer lista dos melhores dessa época sem pôr o P.F.

e geralmente eram os caras mais velhos que eu via curtindo as viagens tecladeiras, o blues etéreo...

ééé... agora sou eu. agora mais disposto a apreciar as longas viagens. :-)

(PS.: pero sin perder la ternura punk... jamás!)


XI.

até me esforço pra acreditar em alguns políticos com "boas intenções" (isso é um termo vago, de difícil definição... o que é ser "bem intencionado" na atual conjuntura), mas os vejo dar de cara num muro intransponível, ora sendo descaradamente cooptados e deslumbrados com o poder, ora se decepcionando e abandonando o barco. (lembro do caso de Proudhon na assembléia francesa...).

se há os que acreditam ainda e apoiam este canal como algo central nas lutas, ok... sigam em frente.

em vez de votar com os de cima, prefiro lutar com os debaixo, pressionando esse mesmo sistema e clamando para que ele enfim desmorone e ceda lugar para outro, mais radicalmente descentralizado e democrático.

em vez de entrar num partido qualquer, até os "de esquerda", prefiro me juntar a movimentos sociais ativos, conectados à idéia/prática de ação direta e funcionando internamente com base na horizontalidade de decisões.

um "louco" a dar murros no ar?

pode ser...

mas é assim que me sinto saudável.


XII.

"The piper at the gates of dawn"...

salve Barret (1946-2006)!

viva a loucura sã!


XIII.

a militância por outra política foi difícil nestas eleições, pois o balaio de gatos defendendo o protesto nas urnas (com o nulo ou a abstenção) reunía alguns porcos fascistas de sempre, com saudades da falecida ditadura... ou de alguma outra coisa bem dura.

um balaio que também reunía os que defendiam o nulo como um recado a estes políticos de agora, apostando ainda numa renovação dos quadros.

no comitê pró-voto nulo, tínhamos a todo momento de nos confrontar com as matérias tendenciosas da porca-mídia corporativa (ou "porcorativa"?!), tentando desqualificar o protesto como "apolítico", "alienado"...

em meio a perguntas capciosas, recursos aos porcos-especialistas-de-sempre e edições mistificadoras, os membros do grupo tinham de reafirmar a todo momento a não centralidade do tema "voto nulo" em nossa campanha (ou seja: voto nulo pelo voto nulo), e sim o protagonismo da questão "outra política".

estávamos e estamos sendo políticos, e democratas... muito mais do que os porcos-de-terno-no-congresso possam imaginar.

o direito ao voto nulo de protesto, o direito ao voto não obrigatório, o direito à participação efetiva nos assuntos que nos dizem respeito: tudo era desqualificado, encoberto e posto num mesmo saco de "apoliticismo", "inconstitucionalidade" e "desserviço à nação".

nada mais porcamente mistificador.


XIV.

um link para aprofundar essas questões:
http://votonulorj.blogspot.com



XV.

será que o sistema já não está bom, só faltando reformar uma coisinha aqui e ali?

veja só... a legislatura que virá parece estar primando pela "renovação" do quadro político.

sangue novo no congresso! vários especialistas que farão o máximo para legislar sobre os mais variados assuntos.... eles são polivalentes, suponho.

veja só... Frank Aguiar, um especialista em forró brega; Clodovil, um especialista em queimação de rosca...

e de volta um político que sempre fez um papel exemplar: Maluf, um especialista em beijar bota de ditadores.



XVI.

Por favor, Castoriadis... me jogue algumas frases salva-vidas, antes que eu me afogue nessa lavagem de porcos chamada "democracia representativa":

"É evidente que o que caracteriza o mundo contemporâneo são as crises, as contradições, as fraturas; mas aquilo que realmente me chama a atenção é a mediocridade. Tomemos a discussão entre esquerda e direita. Ela perdeu o sentido. Tanto uns como outros dizem a mesma coisa."

"Os dirigentes políticos são impotentes. A única coisa que podem fazer é seguir a corrente, ou seja, aplicar a política ultraliberal da moda. Os socialistas não fizeram outra coisa desde que voltaram ao poder. Não se trata de políticas, mas de políticos, no sentido de politiqueiros. Gente que caça voto de toda e qualquer maneira. Não têm programa algum. O seu objetivo é permanecer no poder ou voltar ao poder e para isso são capazes de tudo."

"Nada garante que quem sabe governar sabe como fazer para chegar ao poder. No tempo da monarquia, para chegar ao poder era necessário bajular o rei, cair nas graças de Madame Pompadour. Hoje em dia, na nossa "pseudodemocracia", a arte de chegar ao poder consiste em ser fotogênico na televisão, em saber farejar a opinião pública. Digo "pseudodemocracia" porque sempre achei que a democracia dita representativa não é uma democracia de verdade."

"Não que haja necessariamente fraude nas urnas. A eleição é trambicada porque as opções se definem previamente. Nunca se indaga ao povo quais são os assuntos sobre o quais ele quer votar. Dizem-lhe, por exemplo: "Vote a favor ou contra Maastricht". Mas quem é que elaborou o tal tratado de Maastricht? Certamente não foi o povo."

"Ao invés das pessoas se habituarem a exercer todo tipo de responsabilidade e a tomar iniciativas, habituam-se a seguir cegamente ou a votar nas opções que lhes são apresentadas."

"O que prevalece, hoje, é a resignação, mesmo entre os representantes do liberalismo. Qual é o grande argumento que se ouve agora? "Talvez seja ruim, mas a alternativa seria pior." E isso imobilizou um bocado de gente. Ficam dizendo, para seus botões: "Se a gente fizer muita onda, vai acabar num novo Gulag." É isso que existe por trás deste esgotamento ideológico; e dele só sairemos se uma crítica poderosa ao sistema realmente vier a ressurgir. Junto com um renascimento da atividade e da participação das pessoas."

"As instituições dos dias de hoje enxotam, afastam, dissuadem as pessoas de participar. E, no entanto, em matéria de política, a melhor educação é a participação ativa - o que exige uma transformação das instituições de modo que essa participação passe a ser permitida e incentivada."


XVII.

isso aí, meu brother. valeu mesmo pelas palavras.

que sejam sempre rememoradas, realimentando o "imaginário social radical" que move as rodas da história.

leiam na íntegra, por favor:

http://www.pfilosofia.pop.com.br/04_miscelanea/04_17_lmd/lmd002.htm

basta de mediocridade!


XVIII.

e V, diante da estátua da justiça, trava com ela um diálogo imaginário:

- perdoe-me a intromissão, talvez a senhorita pretendesse passear... apenas desfrutar a paisagem. não importa. creio que é chegado o momento de uma breve conversa. ahh, eu me esqueci de que não fomos apresentados. madame justiça... este é V. V... esta é madame justiça. olá, madame justiça.

"boa noite, V."

- pronto. agora já nos conhecemos. para ser sincero, outrora fui um admirador seu. até imagino o que está pensando... "o pobre rapaz tem uma queda por mim... uma paixão juvenil." eu a admirava, apesar da distância. ainda criança, passando pela rua, eu admirava sua beleza. por favor, não pense que se trata apenas de atração física. em absoluto. eu a amava como pessoa, como ideal. isso foi há muito tempo. agora, confesso que há outra...

"o quê? que vergonha, V! traindo-me com uma meretriz de lábios pintados e sorriso vulgar!"

- eu, madame? permita-me uma correção. foi a sua infidelidade que me arremessou nos braços dela! ah! ficou surpresa, não? pensou que eu desconhecia suas escapadelas? enganou-se. eu sei de tudo. na verdade, não me surpreendi quando soube que você flertava com homens de uniforme.

"uniforme? e-eu não sei do que está falando. sempre foi você, V... o único em minha vi--"

- mentirosa! meretriz! ousa negar que se deixou envolver por ele, com suas braçadeiras e botas? e então? o gato comeu sua língua? foi o que pensei. muito bem. a verdade foi revelada. você não é mais minha justiça. é a dele. recebeu outro em sua cama. faça bom proveito de seu novo amante.

"snif! snif! q-quem é ela? como se chama?"

- seu nome é anarquia. e ela me ensinou mais como amante do que você imagina. com ela aprendi que não há sentido na justiça sem liberdade. ela não faz promessas e nem deixa de cumpri-las como você. eu costumava me indagar por que jamais me olhou nos olhos. agora eu sei. por isso, adeus, cara dama. nossa separação não me entristece, uma vez que não é a mulher que amei outrora.

[...]

{Alan Moore - "V de Vingança"}

XIX.

"A liberdade é difícil. Porque é muito fácil a gente se deixar levar. O homem é um animal preguiçoso. Há uma frase maravilhosa de Tucídides: "É preciso escolher: descansar ou ser livre." E Péricles dizia, ao povo de Atenas: "Se quiserem ser livres, vocês têm que trabalhar." Não podem descansar. Não podem ficar plantados na frente da tevê. Vocês não são livres quando estão na frente da tevê. Vocês se imaginam livres ao apertarem como idiotas os botões do controle remoto, mas vocês não são livres; isso é uma falsa liberdade. Liberdade é atividade. E a liberdade é uma atividade que ao mesmo tempo se autolimita, ou seja, sabe que pode fazer tudo, mas sabe que não deve fazer tudo. Esse é o grande problema da democracia e do individualismo."

(C. Castoriadis, 1922-1997)

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quinta-feira, agosto 31, 2006


1.
A questão da cultura às vezes é atordoante.
Digo "cultura" algo amplo, que envolva modos de ser, costumes, representações, imaginários, instituições, leis, linguagens, mitologias.
Mas algo que esteja profundamente intrincado às relações sócio-econômicas. Uma cultura que, de fato, confunde-se com o modo de produção característico de dada sociedade.
Uma cultura que perpassa e derruba a metáfora reducionista da "base" e da "superestrutura", a primeira determinando a segunda.
Parece-me claro que tais fronteiras são esgarçadas, os laços entre as diversas esferas -- "econômico", "político", "social", "cultural" -- são bastante enredados.
Certo é que, para entender o ser humano dentro de determinada configuração social, devemos ter em mente a relação de forças contraditórias, a luta de classes ensejando e sendo atravessada pelas questões de cultura.
Entender o ser humano em dada sociedade é uma questão de antropologia social. Um estudo cultural que se detenha também no sentido diacrônico, no sentido histórico.
Não há cultura sem história. E não há história, até agora, sem luta de classes.
2.
Quando Carlos Castaneda recebe os ensinamentos do brujo Don Juan, parece que toda a sua carga cultural do ocidente o deixa um tanto "inapto" a se tornar um brujo, no significado concreto daquela experiência para um índio yaqui.
Ao mesmo tempo, parece-me que há uma certa universalidade da espécie, ao pensar nos efeitos dos "aliados": a "erva do diabo", o "humito". Ou o contato com "mescalito" (o peiote).
A bioquímica contemporânea pode interpretar satisfatoriamente as reações das plantas alucinógenas na mente do ser humano. Mas a resposta simbólica a tal experiência química é uma questão que vai depender do meio sócio-cultural.
3.
A pesquisa de campo de Castaneda e sua experiência como aprendiz de um xamã yaqui deveriam nos abrir determinadas portas da percepção... sem precisarmos lançar mão dos alucinógenos.
Deveriam, pelo menos, abrir uma primeira janela para vermos que, na lógica da cultura hegemônica do capitalismo, o ser humano está cada vez mais se desprendendo do "cuidado de si", um cuidado que deve estar conjugado a uma relação harmônica com o meio social e o meio natural.
A lógica de algumas dessas culturas que ainda resistem deveria fornecer determinados subsídios a uma proposta de sociedade alternativa, uma saída do quadro de crônica miséria e devastação ambiental.
4.
Se a revolução deve mudar as estruturas sociais, ela também deve implodir as estruturas do indivíduo moldado pela sociedade do consumo, da competição, do poder, da intolerância, do moralismo, da violência.
O indivíduo deve respirar, quebrar a casca de alienação que envolve o seu ser. Deve revolucionar-se no mesmo instante em que revoluciona a política, a economia, as relações sociais.
Deve travar um diálogo com a natureza com o mesmo respeito com que trava o sábio Don Juan.
A experiência de culturas soterradas pelos valores do ocidente deveria até mesmo nos depertar para a questão da liberdade de uso de substâncias alteradoras do "estado-padrão" de consciência.
Até que ponto o coletivo poderia, numa sociedade justa, intervir na opção pessoal? Quando a comunidade deveria se mobilizar para combater excessos? Que significados, afinal, daríamos a tais substâncias, que fazem parte da história da humanidade há muitos séculos?
5.
Desafios atordoantes, como disse no início.
As alternativas de esquerda gestadas em nossa sociedade tendem à universalização. Algumas querem impor tal universalização de modo autoritário, de cima.
Parece-me que há, realmente, inevitáveis valores "universais" -- historicamente determinados. Valores ligados à vida, ao amor, a Eros; mais do que à morte, à destruição, à Thanatos. Valores que perpassam diveras culturas.
Como aceitar, por exemplo, a exploração entre seres humanos, os atos violentos e os atentados a vidas alheias em nome de "normas culturais"?
Ou, então, como não gritar contra culturas que querem se impor violentamente, que querem rebaixar etnias ou grupos sociais?
6.
Abaixo fascismos, imperialismos, hierarquias, ditaduras... de qualquer cultura.

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quinta-feira, agosto 03, 2006



- olha... olha o louco. zunindo no ar. bradando sem parar. nadando rio acima, contra a corrente. no meio da gente que passa, que olha, que continua, que obedece, que empalidece, mas se emudece, se amortece. olha o louco sorrindo na luta, agindo no sonho. soltando panfleto, colando cartaz, desobedecendo, saindo às ruas, enfrentando o choque, zunindo o molotov, escancarando as mentiras, xerocando o fanzine, injetando vírus de contra-informação...

********
- o louco tá rindo de quê? parece querer o que todos dizem não ser possível, parece querer semear sêmens de esperança num esterco de cínicas descrenças, parece querer ser o que quer ser. não vê que a história acabou? que esse papo tá fora de moda? que a onda agora é uma só? que tem que se adaptar aos novos tempos?

*********

- mas ainda assim eu olho o louco, e me sinto rouco, me sinto pouco, quase nada, a mover-me e olhar para o louco com desprezo. afinal, me dizem todos que é louco. nunca parei pra falar com o louco, nem quero ouvir o louco. não dizem que o que diz é loucura? e por que, afinal de contas, eu iria contra a maré, contra o que dizem lá os que parecem saber mais do que eu?

********

- engraçado que chego em casa e me vejo torto, absorto, na normalidade normativamente normalizada... mortalmente mortalizável. e olho pro espelho e não vejo um louco, vejo um cidadão responsável, pagador de impostos, ciente de que faz tudo para que as engrenagens estejam sempre bem lubrificadas. vejo um eminente cidadão, que se indigna, não gosta de ver as mazelas... mas fazer o quê? reclamar que nem um louco?

********

- pelo menos vejo no espelho um rosto que se destacou dos miseráveis... venceu a competição pelo lugar ao sol. e sou normal, tenho família, dou meu suor pela empresa, sou temente a deus, dou o dízimo, ligo pro criança esperança... faço minha parte... o mundo vai melhorar assim... sem radicalismos, com civilização, com cultura elevada, com mercados abertos e dinâmicos. todos terão oportunidades iguais... caso se dê mal, meu irmão, se qualifique, se vire, corra atrás, seja mais competitivo. você teve todas as chances...

********

- mas vejo que a vida é cada dia pior, cada dia me esgarço mais num não-sei-o-quê sem sentido, pra sobreviver, pra gozar o efêmero prazer de um instante vazio. pra perceber que nas minhas veias correm tédio e medo.

********

- e de repente me vêm imagens loucas. vejo tudo isso que parece estar errado. e o cheiro de pobre que agora chega bem perto. a pobreza que escala o morro no fundo do prédio. do meu prédio! e o cheiro de sangue e pólvora. e o que eu tenho com isso? o que eu faço por isso? por que deixaram essa gente brotar aqui? não pago meus impostos para manter a cidade limpa? que desagrádavel mal estar... e ainda aguentar loucos reclamando. radicais!

**********

- eu não reclamo... só voto. e espero que os políticos façam alguma coisa, construam mais penitenciárias, mais febens, botem mais caveirões na rua... qualquer coisa pra tirar essa gente daqui. pra calar a boca desse louco que grita, que como uma mosca incômoda me olha nos olhos e diz que eu tenho que gritar também, exigir. pra quê? vai mudar alguma coisa? eu pago impostos! não estou aqui pra reclamar... eles que façam... afinal, ganham bastante pra isso, são profissionais no assunto, são especialistas. não reclamo, voto! os políticos que resolvam... só que demoram demais... já podiam ter tirado essa gente miserável daqui... e também esse louco que ri... do que ri?

**********

- será que ri de mim?

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terça-feira, julho 04, 2006



tem aquela história da emenda, do soneto...

às vezes a emenda sai pior que o soneto...

não é isso?

mas pode sair melhor, né não?

bom... vou adaptar aqui: os comentários saíram melhor que o texto porque trouxeram à tona coisas que o meu panfletarismo verborrágico deixou de lado. mas são coisas que eu, de verdade, não boto de lado.

mas tem o lance da escrita automática: o texto saiu meio no ritmo frenético de quem faz um panfleto. bebop, charlie parker...


***

sobre marx...

não sou marxista porque... vejo em marx alguns germes de autoritarismo que uma posterior leitura quadrada pode supervalorizar (e, de fato, fez isso, vem fazendo e alguns não param de querer fazer... ); determinada arrogância no debate político e intelectual e... acho que só isso (pelo menos que eu me lembre agora...).

mas não posso ser "antimarxista", ou seja, desconsiderar a importância do seu legado. foi um gênio. deve ser sempre lembrado, utilizado, atualizado... sou fã de marxistas ou de ex-marxistas que trabalharam as suas idéias de uma maneira genial: thompson, marcuse, jameson, castoriadis, guerin, raymond williams...

sobre a questão da dialética, perfeito. não sou especialista, sou só um ranheta, li pouco, falo muito, mas posso dizer que, pelo pouco que sei, era isso mesmo: "uma superação dialética (o q é completamente diferente de progresso linear)".

a dialética é maior que o próprio marx. vejo dialética no pouco que li sobre taoísmo, sobre hinduísmo... enfim, sobre qualquer modo de encarar a realidade em suas contradições, suas múltiplas determinações. (falei merda?)

como não tenho base, não posso entrar numa discussão séria (he he he... maneira canastrona de tirar o corpo fora), mas tive a impressão, em algumas passagens que li, que há, em Marx mesmo, esse investimento na infalibilidade das leis da história. mas aí é como disse: talvez sejam os "textos mais políticos", talvez não seja o "jovem marx", talvez seja o engels, talvez ele estivesse sendo panfletário como eu...

o certo é que as leituras mais mecânicas (tipo stalinismo, estruturalismo marxista...) que são de doer.

o lance é que marx, dialeticamente falando, foi tudo isso aí: gênio, proto-ditador, revolucionário, arrogante, humanista, centralizador... etc, etc, etc.

e se ele foi tudo isso, foi humano. e se foi humano, errou. e se errou, merece crítica.

só escolho, às vezes, o lado que me incomoda, aquele trecho de texto que me soa mal aos ouvidos e... bato um pouco no marx. ele é forte, parrudão, tem anos de tradição e um exército de fortes seguidores. o poder acadêmico, intelectual e polítco do marxismo é considerável. marxistas tiveram um mega-estado na mão, gráficas, sistemas de propaganda e distribuição. bater no marx é muito difícil ...

mas acho que tem que bater mesmo assim porque, na minha visão, ninguém merece a tranquilidade da mumificação.

mas não custa lembrar: se não há um marx (já que o cara escreveu de maneira caótica, deixou temas em aberto e, mesmo assim, tem um pensamento riquíssimo), não há um só marxismo.

eu faço a minha divisão. tem um marxismo redondo (marxismo skol?), aberto, vivo e bom pra ser parte de uma tradição socialista que propõe um projeto alternativo de sociedade (contracultural... pois contrário à cultura hegemônica, ao modo de produção capitalista).

e há o grupo dos marxistas-quadrados, dogmáticos, sectários, que investem em coisas que, até que me convençam do contrário, podem ser prejudiciais. coisas que, a história comprova, fizeram mal.

***

e sobre a burguesia, o progresso...

peguei os "elogios" do Manuscrito para, maleficamente, armar o meu texto e ilustrar com um trecho fora de contexto. fiz como muitos jornalistas safados (alguém aí falou 90% da categoria?) que descontextualizam declarações e publicam tudo menos o que você disse.

é óbvio que os progressos da burguesia são coisas com que todos, não só marx, se admiraram. anarquistas, comunistas, socialistas... todos, afinal, são (forçando muito a barra aqui na expressão) filhos do iluminismo.

se a gente acompanha o trajeto do conceito "revolução", a gente entende que foi a classe burguesa uma das reponsáveis pela idéia de que é possível superar, revolucionar, instaurar um novo.

rompe com a noção do tempo cíclico. e aí a idéia da evolução, do progresso... porra, a burguesia foi foda. toda a idéia de liberdade...

sim, despertaram o germe. agora aguenta!

o germe da destruição pra mim está mais na divisão em classes, na questão do explorador-explorado do que nos grandes feitos. por isso, vejo com maus olhos interpretações mecânicas que fizeram a cabeça de comunistas que viam a revolução em etapas: primeiro desenvolvem-se as forças produtivas, depois as contradições... às vezes tenho uma visão muito mais caótica da história, ainda que certas relações possam (e devam) ser feitas.

é possível interpretar a realidade... mas é necessário transformá-la.

não dá pra negar a razão, cair no irracionalismo. não dá pra negar a história, o materialismo, a dialética.

"fim da história" uma ova!

a contracultura que foi ou que seja contrária ao lado positivo do progresso perde a virulência de contracultura.

tá certo... o termo é poluído. entra na mente um bando de riponga, baseado na mão, querendo criar galinha na serra...

embora nada tenha contra o baseado na mão, gosto de entender contracultura como o que diz a palavra: uma cultura contrária a uma outra, em geral hegemônica.

socialismo, nas atuais circunstâncias, é contracultura. ou estou viajando demais?

mas aí a gente teria de discutir o conceito de cultura e... blurururgfhfhrgrgrhfgftrtrgftrjghjh!!!

chega! se não eu piro!

talvez o texto tenha focado a crítica ao progresso como apelo ao (impossível) retrocesso.

melhor seria entender a critica aos "males do progresso", propondo usos mais benéficos das técnicas, ciências, saberes etc.

não tem mais volta... não deve ter. acho que o marcuse e outros iluminam bem isso aí... mas tô com preguiça de pegar o livro e catar uma citação.

e se há sabedoria num modo de vida mais "primitivo", como o dos índios ou de antigas comunidades, por que não fazer uma re-leitura de pontos adaptáveis à nossa realidade?

se não quisesse um avanço, algo para melhor, creio que poderia jogar toda a noção de progresso pro lixo e virar um "involucionista". mas isso não quero, não posso querer...

aí vem o que foi dito muito bem:

"Pelo que sei, Marx faz sim, no Manifesto Comunista, um elogio declarado à burguesia. Não sei quanto à visão linear da história, mas ele de fato via o advento do capitalismo como um avançar nas condições da humanidade, que possibilitaria o desenvolvimento das forças produtivas, o que, a longo prazo, faria com que a humanidade pudesse se libertar, embora relativamente, das leis da natureza. Isso tem a ver, inclusive, com a sua visão de liberdade. A liberdade, em Marx, não é a liberdade de se sujeitar às leis da natureza, mas justamente a liberdade de tomar certa independência com relação a estas leis, de poder "jogar com a matéria". Isso não tem nada que ver com um elogio da destruição do planeta que é engendrada pelo Capital. Inclusive, pelo pouco que li, Bakunin sustentava uma visão parecida, quando afirmava que o homem só se emancipa progressivamente no seio da sociedade, e que só o trabalho coletivo é que pode realizar a liberdade. Sobre o progresso, acho que não se trata de fazer voltar as antigas relações tribais, pré-capitalistas, mas de avançar, de dar um passo a mais..."

emenda melhor que o soneto.

***

afinal, foram reflexões de porta de birosca: rápidas, ligeiras e gordurosas como coxinha com caldo de cana.

muito obrigado pelos comentários.

serão sempre bem vindos.

e... viva marx... groucho marx!




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segunda-feira, julho 03, 2006



A.

Viciados em progresso, os Estados-nacionais (em associação com as mega-corporações-quase-Estados) vêm promovendo, há tempos, um dos mais acelerados processos de degradação do planeta.

Nenhuma novidade... (Aliás, o blog aqui é feito de coisas óbvias).

Os mitos da história linear, do evolucionismo social, do nacionalismo e da suposta infalibilidade da razão ergueram justificativas de aço, contra as quais se contrapuseram vozes discordantes, que logo eram isoladas em ilhas de "insanidade", "atraso" e "utopia".

Lembrando Marcuse, um dos aspectos mais perturbadores da sociedade industrial desenvolvida é justamente o "caráter racional da sua irracionalidade".

Se liga só:

"[...] no período contemporâneo, os controles tecnológicos parecem ser a própria personificação da Razão para o bem de todos os grupos e interesses sociais -- a tal ponto que toda contradição parece irracional e toda ação contrária parece impossível". [ver "Ideologia na sociedade industrial". Zahar, 1969, p.30].

E o cara disse isso lá nos anos 60...

Hoje vemos que pouco se faz para frear o apetite cancerígeno do modo de produção capitalista. Os EUA não se incomodam em passar por cima do protocolo de Kyoto; o Japão argumenta que não pode parar de caçar baleias por "questões culturais"; e os cínicos teóricos das benesses da civilização ocidental já recuperam, com novas roupagens, as licenças científicas mais estapafúrdias para fazer valer a superioridade dos valores ocidentais.

E por aí seguem devastações ecológicas, genocídios de Estado, terror e insatisfação.


B.

O espectro do século XIX não deixa de nos rondar...

Não consigo parar de farejar imperialismo, colonialismo e teorias raciais mal disfarçadas por filosofias culturalistas.

Na virada XIX-XX, parecia impossível nadar contra a corrente do progresso defendido pelos entusiastas da modernidade. (Como ainda hoje parece improvável a iconoclastia dos ícones do mercado...).

Os positivistas creditavam-se papéis de sábios iluminados, cavalgando no cangote incontestável da ciência. Com base em leituras capciosas das teorias de Darwin, um bando de ávidos intelectualóides da conservação não tardou em aplicar as idéias de "seleção natural" para o meio social. Assim, haveria aqueles seres humanos mais aptos a liderar a humanidade no caminho que iria das trevas à luz (olha o Iluminismo aí também jogando mais areia nesse caminhão).

Poucos, na época, contestaram o mito do progresso. Os que fizeram foram taxados de atrasados, lunáticos, irrealistas.

Kropotkin foi um dos que se indignaram com a afirmação de que, no mundo natural (e, por extensão, no social) tudo é competição. Ainda que imerso no cientificismo de seu tempo, ele ressaltou que, para a sobrevivência das espécies, valem muito mais os exemplos de solidariedade e cooperação. Esse é o tema central de seu "Ajuda Mútua".

Até Marx e os marxistas prestaram como ninguém homenagens à modernidade ocidental. No Manifesto Comunista, uma idéia constante: o capitalismo iria se reproduzir, dolorosamente, mas seria “progressista” e favorável à ascensão da classe revolucionária. A crença na infalibilidade das “leis da história” e a dificuldade em lidar com as descontinuidades faziam com que o mais famoso texto das esquerdas, pelo menos em alguns trechos, fosse um rasgado elogio à burguesia. Se para o socialismo marxista a fase capitalista era historicamente necessária (o que levou Engels a vibrar com a vitória estadunidense na guerra contra o “atrasado” México), valia a pena encarar como "leis" infalíveis o desenvolvimento industrial e a subjugação da natureza pelo "homem racional".

Sente o drama:

“[A burguesia] demonstrou o que a atividade humana pode realizar. Construiu maravilhas maiores que as pirâmides egípcias, os aquedutos romanos e as catedrais góticas. [...] a burguesia logra integrar na civilização até os povos mais bárbaros. [...] Durante sua dominação, que ainda não completou um século, a burguesia desenvolveu forças produtivas mais maciças e colossais que todas as gerações anteriores. Dominação das forças da natureza, maquinaria, aplicação da química na indústria e na agricultura, navegação a vapor, estradas de ferro, telégrafo elétrico, desbravamento de regiões inteiras [...]”. [“Manifesto do Partido Comunista.”].

C.

Após a Revolução Russa, parece que todos os projetos de sociedade deviam passar por uma centralização desmedida, que quase sempre desembocava numa burocratização do poder e eliminava qualquer participação política mais efetiva do povo.

Tanto o stalinismo totalitário, quanto os fascismos, ou o Welfare State de Roosevelt pós-crise de 29... Tudo levava a crer que as alternativas necessariamente viriam pela institucionalização pelo alto, pelo poder forte, pelo planejamento estatal... Enfim, pela tecnocracia.

Como a base para o bem-estar era medida por índices como crescimento econômico, tecnologia e industrialização, a propaganda tecnocrática girava em torno do "saia do carro, ligue a TV, abra a geladeira e engula qualquer tipo de contestação".

Mas o santo progresso acabou levando todos para mais uma hecatombe (2ª Guerra), além de trazer a sombra incômoda da aniquilação nuclear.

E é no pós-Segunda Guerra que aquelas vozes isoladas começam a se tornar mais espessas. O conforto e a tecnologia não respondiam mais aos anseios dos que queriam mais liberdade, mais prazer, mais humanidade. Ideologias "retrógradas" começaram a fazer mais sentido do que o vazio angustiante de termos que adornavam genocidas em pele de estadistas.

Afinal, tinha-se "liberdade" ou dessublimação repressiva, controlada, manipulada? "Democracia" ou um sistema bem urdido para diluir qualquer participação política mais incisiva? "Igualdade" ou os ditames de um bando de "iluminados" centralizando tudo num partido de burocratas?

Se o apelo a uma forma de existência diferente parecia fazer voltar a roda da história (o que é impossível para quem trabalha com a lógica de que ela é feita de leis e de que anda pra frente), então é justamente o "pré-político" que vem deixar o legado mais marcante para sacudir o pó das velhas ladainhas da esquerda. "Pré-político" porque os sábios de esquerda entendem “política” como um desenvolvimento linear, que vai de uma "consciência sindical" a uma "verdadeira" consciência revolucionária, necessariamente amparada pelo partido, pela ditadura do proletariado, pelo Estado superinflado da eterna "fase de transição" -- onde confortavelmente se acomodaram os ditadores de vermelho.

Aqui, nada como atiçar o velho Bakunin em seu túmulo. Fala, garoto:

"Um partido conduzido por uma vanguarda levará à formação de uma aristocracia governamental que recomeçará a explorar e subjugar os trabalhadores a pretexto de que assim age para a felicidade comum ou para salvar o Estado, um Estado ameaçador, ditatorial e ainda mais absoluto porque seu despotismo se esconderá sob a aparência de um obsequioso respeito à vontade do povo”.

Incapazes de um rompimento mais radical com a lógica iluminista e positivista, os sábios de esquerda não abalam as estruturas do sistema representativo, do Estado, do sufrágio universal, do partido político... reproduzindo/reforçando em seus sistemas essas instituições históricas (que, como tudo que é histórico, têm nascimento, desenvolvimento e podem morrer), quase como leis naturais inabaláveis.

Como bons herdeiros do positivismo, arvoram-se na "verdade" de sua teoria. Alternativas a esse modelo são "anti-científicas", "utópicas", "doenças infantis"...

Como contestá-los se partem de pressupostos tão cimentados? (Aliás, para toda contestação eles mandam logo o rótulo de "ideologias pequeno-burguesas").

D.

Todas essas micro-reflexões de porta de birosca (incompletas, escorregadias, inconstantes...) me vieram à mente depois que vi a ilustração que reproduzo acima, bem característica do que os pensadores da contracultura chamaram de "tecnocracia".

Em linhas gerais, tecnocracia resume uma forma de administração social calcada nos valores mais caros da modernidade: "progresso", "civilização", "ciência", "tecnologia", "Estado"...

No auge da guerra fria, tanto o capitalismo (o mosquito ianque) quanto o "socialismo" (o mosquito de foice e martelo) reproduziam-se tendo como base discursos bem semelhantes – e igualmente sugavam os recursos naturais da mãe terra sem muita cerimônia.

O "inseticida" vinha como alternativa a essas culturas... daí seu apelo contracultural.

Uma alternativa incômoda, crítica, que vinha enchendo o saco desde fins do século XIX, mas que fora, como disse, sufocada pelos ideólogos dos dois Estados mais totalitários da história (subliminarmente totalitários, já que criaram um imaginário social que vomitava palavras-anestésico como "liberdade", "socialismo", "democracia", "igualdade", "bem-estar"...).

Uma alternativa que se reforçou nos movimentos de contracultura dos 50/60/70, na releitura do pensamento oriental, na exigência de uma política cotidiana (democracia direta), na fé em modos menos repressivos de viver (comunidades, amor livre)...

De fato, um legado que foi mastigado, digerido e cagado de maneiras absolutamente distorcidas pela indústria cultural, pelas máquinas-de-fazer-mitos do sistema... mas ainda assim um legado necessário, urgente, que deveria alimentar a contestação atual.

Um legado não morto, não dogmático, não tido como infalível, não elevado ao status de "pensamento de vanguarda", não arrogantemente rotulado de "científico" (como se a ciência fosse garantia de alguma coisa claramente melhor).

Um “legado-parangolé” (fala, Hélio Oiticica!), pra ser reconfigurado, reatualizado, recontextualizado...

Um inseticida que vale como lança-perfume utópico: é preferível ficar alegre-chapado cheirando esses sonhos-sementes (que, por que não?, podem germinar) do que se paralisar-anestesiar com a egoísta cocaína neoliberal do "fim das ideologias" ou com a vodka dogmática das múmias do esquerdismo senil.

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