domingo, junho 17, 2007

sem saco pra escrever algo novo, mando um texto que produzi em outro contexto (e que não foi publicado).

aproveitando também o lance dos 90 anos da Revolução Russa...

segue.


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Bandeiras negras sobre fundo vermelho

A presença anarquista na Revolução Russa

“Você está exagerando ao sugerir que nós usaremos a força bruta contra os anarquistas!”. Foi assim que Leon Trotsky, um dos personagens da Revolução Russa, dirigiu-se ao anarquista Volin, em abril de 1917, meses antes da tomada do poder pelos bolcheviques. Volin parecia prever que as divergências ideológicas entre os dois grupos poderiam levar a um enfrentamento de graves conseqüências. Seu temor, afinal, não foi infundado. Apenas um ano depois, o comandante do Exército Vermelho avaliaria a ação contra os anarquistas de Moscou nestes termos: “Enfim o poder soviético varre o anarquismo da Rússia com uma vassoura de ferro”.

Varrida também das páginas da história da Revolução Russa, a participação anarquista num dos episódios mais importantes do século XX apresenta cenas fortes demais para serem condenadas ao esquecimento. Elas atestam que a revolução foi um processo complexo, envolvendo diversos sujeitos sociais e variadas propostas no interior das próprias esquerdas. O conhecimento dessas nuances pode nos ajudar a ter uma visão mais completa da revolução que ainda hoje inspira o imaginário daqueles que lutam por um mundo mais justo.




A partir da segunda metade do século XIX, começa a se constituir um movimento anarquista na Rússia. Inspirados nas obras de anarquistas russos como Bakunin, Kropotkin, Tolstoi e Emma Goldman, muitos libertários exilados na Europa Ocidental irão publicar jornais libertários em solo russo. Um destes foi o Narodnoe Delo (“A Causa do Povo”), apoiado por Bakunin, que entrava clandestinamente nos fechados domínios do czar em fins da década de 1860. Outro jornal importante foi o Hleb i Volya (Genebra, 1903-05), cuja influência maior vinha de Kropotkin.

Porém, eram muitas as correntes socialistas a tentar hegemonizar os processos que levaram à eclosão da Revolução de 1905, considerada o “ensaio geral” antes de 1917. O próprio Kropotkin reconheceria que a atuação espontânea das massas foi uma força muito mais decisiva do que as idéias dos intelectuais de esquerda. “Não foram os social-democratas, nem os socialistas revolucionários, nem os anarquistas que lideraram esta revolução. Foi a classe operária, o trabalhador”, disse ele.

A volta dos expatriados após a Revolução de Fevereiro de 1917 fez com que os grupos dispersos buscassem uma rearticulação. O poeta Volin reconheceu que, ao chegar à Rússia em julho de 1917, eram poucos os sinais da presença de grupos anarquistas. No entanto, havia esforços para organizar um movimento que, assim como outras correntes do socialismo, sofrera com a repressão do governo imperial.





Quando eclode a Revolução de Outubro, muitos anarquistas participam das agitações, vislumbrando no estabelecimento dos sovietes uma possibilidade de ascensão de uma sociedade descentralizada, organizada de baixo para cima, num regime socialista fundado na autogestão social dos meios de produção e das instituições civis. Porém, a idéia bolchevique de uma ditadura comandada pelo partido recebia muitas críticas. Esse posicionamento ficou claro na resolução do Congresso Nabat (Confederação das Organizações Anarquistas da Ucrânia), de abril de 1919, onde se apoiava “toda a participação nos sovietes”, que haviam se transformado, entretanto, em órgãos “organizados em bases autoritárias, centralistas e estatizantes”.

Os bolcheviques, por sua vez, acusavam os anarquistas de “contra-revolucionários” ou de “bandidos”. Sob tal orientação, iniciava-se uma ofensiva vermelha contra indivíduos e organizações anarquistas na Rússia. A Cheka, a polícia política do bolchevismo, começou as perseguições com uma batida aos escritórios do jornal Anarchy, publicado pela Federação Anarquista de Moscou. Em seguida, a “vassoura de ferro” eliminaria grupos libertários em Petrogrado, Moscou, Kharkov e Odessa. Centenas foram presos e muitos foram executados nos porões da Cheka, entre eles Fanya Baron e mais oito companheiros, o que causou comoção e protestos. Estudantes da Universidade de Moscou também protestaram contra os maus tratos aos detentos políticos na prisão de Butyrki. Em resposta, o governo prendeu líderes estudantis e fechou a universidade.

Na medida em que se noticiava a repressão aos anarquistas, protestos irrompiam de toda a parte. Kropotkin enviou uma carta a Lênin, datada de 4 de março de 1920, na qual dizia que os conselhos locais (sovietes) deviam ser estimulados. “Mas a Rússia”, continuava ele, “é uma república soviética apenas no nome. A influência e o poder dos homens do partido, que são freqüentemente estranhos ao comunismo, têm aniquilado a influência verdadeira e a força daquelas instituições que muito prometiam: os sovietes.”.


Makhnovtchina: a guerrilha de Makhno

Foi na Ucrânia, ao sul, que o anarquismo russo conheceu seu momento mais significativo. O operário Nestor Makhno, eleito presidente do soviete local, formou um Exército Insurgente de inspiração anarquista que desempenhou importante papel contra a ofensiva do Exército Branco, ajudando os bolcheviques nessa tarefa.

Em dezembro de 1919, contudo, o Exército Vermelho chegou ao sul e ordenou que os makhnovistas partissem para o front polonês. Makhno se recusou, pois não queria deixar a Ucrânia livre para o controle bolchevique. Dessa forma, virou persona non grata para os leninistas. A partir daí se iniciou a luta entre a makhnovtchina e o Exército Vermelho, com intervalos de tréguas e acordos.

O avanço dos Brancos ao norte obrigou os bolcheviques a firmarem um novo acordo com a guerrilha, prometendo a libertação dos presos anarquistas e a liberdade de expressão. Makhno cumpriu sua parte impedindo a ofensiva contra-revolucionária. Já o Exército Vermelho fez justamente o contrário: em 26 de novembro de 1920 prendeu os anarquistas mais conhecidos da Ucrânia; em seguida, convidou os comandantes de Makhno para uma conferência na Criméia, durante a qual foram capturados e, depois, fuzilados.

A resistência da guerrilha anarquista não poderia durar infinitamente, dada a vantagem numérica e material dos Vermelhos. Assim, Makhno fugiria para a Romênia no fim de 1920, passando por algumas prisões até alcançar a liberdade e o exílio em Paris, onde viveu até 1935.


Reflexos no Brasil: o “Soviete do Rio”

No Rio de Janeiro, então capital da República, eclodiu em 1918 uma insurreição anarquista inspirada na explosão revolucionária da Rússia. O levante pretendia instaurar o “soviete do Rio” e estava articulado com uma greve em várias fábricas no dia 18 de novembro. Os anarquistas também pretendiam atacar a Intendência de Guerra, no bairro de São Cristóvão. Além de conseguir armas para a ação, o ataque trazia a expectativa de apoio dos soldados, como acontecera na Rússia.

Mas a adesão dos escalões inferiores das Forças Armadas não ocorreu. Na verdade, a aproximação de um militar ao grupo conspirador foi responsável, em parte, pela derrota da insurreição. Um tenente do Exército atuou como agente infiltrado e entregou aos seus superiores todos os detalhes do plano. Antes das ações armadas, vários líderes já tinham sido encarcerados.

Ainda assim teve início uma série de combates nas ruas, com explosões, troca de tiros e algumas mortes de ambos os lados. Duas torres de energia elétrica foram explodidas e os operários tomaram o 10º Distrito Policial. No entanto, as tropas fiéis ao governo reprimiram uma rebelião que já esperavam. Além disso, a ausência de um contexto revolucionário com ampla base social – como ocorrera na Rússia – também frustrou o sucesso da ação.

Nos relatórios policiais e nas manchetes dos jornais do dia seguinte, a ideologia dominante procurava jogar a opinião pública contra os anarquistas. Em geral, diziam se tratar de “agitadores” que pregavam a “desordem e a subversão do regime legal”. Inclusive a “desonra de virgens” estaria, segundo a polícia, nos planos dos insurgentes (!).

E como em tantos outros episódios da história do Brasil, a vitória coube mais uma vez às elites.

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sexta-feira, junho 16, 2006



diA desses estava pensando na vocação autodestrutiva da esquerda -- escorpião de rabo longo que se envenena constantemente.

sinistrO... às vezes os opositores mais ferrenhos do socialismo estão dentro da própria tradição socialista.

eU lembrei de uma cena de "Terra e Liberdade", de Ken Loach, que trata da guerra civil na Espanha (1936-39).

certA hora do filme, anarquistas e comunistas trocam tiros numa rua. umA velha senhora espanhola, da sacada de sua casa, dispara o tiro que faltava -- um tiro na consciência -- algo como: "O que vocês estão fazendo? Parem de brigar! O inimigo é o fascismo!".

É sabido que grupos stalinistas ensebaram bastante a luta tanto de grupos anarquistas quanto de trotskistas. Franco agradeceu e instaurou sua ditadura logo a seguir.

nO Brasil do início do século XX -- mais precisamente a partir da década de 20, com a fundação do PCB -- comunistas e anarquistas batiam boca e chegavam às vias de fato (com agressões físicas e até atentados a tiros) na disputa pela hegemonia dentro do movimento operário. fundadoreS do PC (a maioria composta por ex-anarquistas como Astrojildo Pereira e Otávio Brandão) punham a cartilha vermelha de Moscou embaixo do braço e, literalmente, partiam para a porrada para cima dos ácratas. tinhaM um grupo que foi logo apelidado de "Tcheka", em alusão à polícia especial dos bolcheviques... criada para cuidar dos "desvios contra-revolucionários".

parA algum ex-anarquista desavisado, que levasse para dentro do partido alguns dos "cacoetes" libertários, não demoravam para dar de presente a expulsão dos quadros, acompanhada de execração pública. foI o caso do tipógrafo Antônio Bernardo Canellas, que sofreu o primeiro expurgo do PCB.

representandO o partido no IV Congresso da Internacional Comunista em Moscou (1922), Canellas "ousou" discordar de Trotsky e votar contra alguns projetos de interesse dos bolcheviques. A jornalista Iza Salles recupera essa história no seu livro: "Um Cadáver ao Sol - A história do operário que desafiou Moscou e o PCB" (Ediouro, 2005).

Iza reproduz um trecho do documento "O processo de um traidor", redigido pelo PCB, que dá o tom exato do clima autofágico no interior das esquerdas:

"É necessário dissecar este cadáver. É preciso desnudá-lo, rasgar-lhe o couro mau, desfibrar-lhe as carnes ruins, pôr-lhes as vísceras ao sol, espremer-lhe o fígado esgorgitado de torpeza. Temos o punho rijo e o ferro é de qualidade."

acusadO de traidor e expulso tanto do partido quanto da Internacional, Canellas não deixaria de responder aos dirigentes do partido:

"Vocês querem me matar como homem e como revolucionário, mas eu estou muito jovem para morrer".

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