sexta-feira, julho 18, 2008

Tudo bem.

Nem tudo vai combinar

como numa boa edição cinematográfica.

A trilha sonora às vezes não casa com o sonho.

Na maioria das vezes a trilha é o barulho irritante da rotina.

Os filhos, as contas, os bichos de estimação, a barriga,

o destino traçado,

sem perturbações, sem turbulências,

céu de brigadeiro pra ele.

Mas e daí?

Eu boto aquele som e volto ao passado que nunca foi futuro.

Estamos lá, curtindo o som.

Nunca estaremos lá, mas a trilha está bem ajustada.

Seja lá o que isso quer dizer.

[23.6.08]

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quinta-feira, dezembro 06, 2007

{{{Pé Sujo}}}

evolui, peste ambulante!

despede o troglodita que habita tua carcaça.

esgarça a gravata encardida, essa forca da tua modernidade!

cospe o vinho barato que botaram no teu copo de requeijão!

vai ser passista da Unidos do Blá Blá Blá,

cantar o samba dos fodidos e mal pagos,

tomar cerveja num pé sujo!


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quinta-feira, junho 28, 2007



textículos, textículos, textículos...

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eu parei pra pensar aqui, diante dessa baía. parei pra pensar num fluxo louco de coisas que giravam em torno do meu umbigo. meu umbigo e nossos umbigos coletivos. mas aí esqueci de sentir a baía, naquela hora. de sentir o vento que trazia a vibração das favelas, que trazia as histórias daquelas ruas, pessoas, lutas cotidianas. tudo que vem procriando da mais absoluta ou relativa miséria. a autonomia pra sobreviver. mas de repente eu sentia outras coisas na baía. aqueles carros, aquela plataforma iluminada. a ponte que parecia uma grande veia, viva para hemácias coloridas... hemácias com faróis.


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Amor, amor... meu amor.

Onde posso pôr todo o meu desamor?

Onde posso escancarar o peito poético de angústia, desilusão e cinismo?

Onde posso dizer que não amo ninguém?

Onde posso compor um soneto sombrio em nome dos solitários?

Onde posso pendurar minha carcaça sedenta de escuro e frio?

Onde posso desfrutar o vazio da incompletude eterna?

Onde posso passar o resto dos meus dias dizendo...

Vai se foder, amor!

(jan.06)


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[[{{da bosta ao beat}}]]

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz... que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada... que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo... que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer... que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas... que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda...”

ele
lia os uivos de ginsberg
sentado no vaso

paralelamente aos versos
fazia força devagar
até que todo o cocô tivesse saído

até chegar ao ploft grand finale

virou-se calmamente
enrolou um pouco de papel higiênico na mão direita
lentamente levantou a bunda do vaso rachado-cinza-manchado
passou o papel no rabo
conferiu o resultado
amassou e jogou no cesto

trago num cigarro
sorriso
escarro
até que ouviu um grunhido dissonante

“porra, valdemar! eu não falei para desentupir a merda dessa pia hoje?! porra, valdemar!!”

mordendo forte a carne da ira que se deslizava sob sua carcaça
fechou vagarosamente seu volume de “uivo”
deu mais um trago no cigarro filtro amarelo
levantou do vaso
olhou a merda no fundo da água
pensou na merda de vida que tinha
e concluiu:
“devo ir da bosta ao beat”.

[[[[trecho sampleado: “Uivo”, de Allen Ginsberg}}}


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{{{relato do meliante que furtou a prancha do surfista prateado -- anexado ao B.O. do 5º distrito estelar}}}

o batimento cardíaco da minha existência acelerado
esperando beijar
a boca aberta de delírios lunares, noturnos
sugar o ópio doce dos seios suados das nebulosas púrpuras
sentir a energia ativa do átomo formador da primeira estrela
energia que sou eu
energia que sou deus
nas sarjetas das galáxias
cambaleando em meteoritos carnudos
zunindo em cima da prancha que roubei do surfista prateado
singrando o universo
vivendo, errando, amando.

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se eu quiser me multiplicar em vários serei livre.
mas se vários for, posso me perder num não ser, num lugar nenhum, num excesso de opções...
na deliciosa vertigem de nada ser.

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[[[Da série “Pequenas grandes dores”]]]

Fechou o zíper apressado.
Beliscou a ponta do caralho.
Ai, ui, ai.
Puta que pariu!

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sem
saco
para ser
nada além
de um ser
que coça
o
saco.

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{{{boa noite... z z z zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz z z...}}}

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sábado, janeiro 13, 2007

e lá vem aquela velha de novo me encher o saco...

não... não vem pra cá!
mas vem.
uma velha, olheiras enormes, crateras na face gordurosa, crostas de seborréia entre ralos cabelos.
- senh...hmmmm... por...hm,,mm... favô....hmmmm....um trocadin...hmmmmm#### ... $$$... tenho doenç.....ói...ói...
levanta a blusa, mostra as costas, a barriga... cheias de verrugas purulentas...
e eu digo que
não... não tenho... foi mal...
o chiado raivoso do rádio.
sexta-feira quente de verão noite rio avenida rodrigues alvez.
pavuna, madureira, gramacho, belford roxo, piabetá...
o meu não vem.
o meu parece que nunca vem.
genérico da valda, 30 centavos...
bananada açucarada, 10...
vêm trocadoras de ônibus com batom barato, sorrisos cinzas, cigarro-pigarro.
vilar dos teles, xerém, paracambi, sepetiba...
e a porra do meu não vem, nunca vem.
e vem o cachaceiro, catando latas, guimba de cigarro pendendo na boca desdentada, olho amarelado, catarro petrificado no bigode crespo.
e a moça suburbana, calça colada, sobe linda no irajá...
e nada do meu, nada.
nova campina, cabuçu, nilópolis, guadalupe...
e o ar se torna pesado, a vida me esmaga,
as pessoas vêm, as pessoas vão...
e eu me martirizo numa existência crítica sem o meu, que não vem,
e eu não vou, eu estaco, eu paro, e não me movo.
queimados, santa cruz, éden...
o vendedor de bala sobe e vai, a velha com bolsa de mercado sobe vai, o garoto com uniforme de bombeiro sobe e vai...
e eu que não sou nada, que não vou, que não subo, que não sumo, que não vendo balas nem tenho verrugas purulentas nas costas...
coelho neto, nova iguaçu, realengo, marechal hermes...

camelô, camarada, me vê a tal bananada,
guaraná natural, amendoim japonês,
me vê, me vê...

o quê?!

olha o meu! olha o meu!

faz sinal! faz sinal!

putaqueopariu...
pu-ta-que-o-pariu...
passou, passou, passou...

e lá vem aquela velha de novo me encher o saco.


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literapaudura

à tua literatura,
que se quer literapura,
contraponho
minha literadura.
inchada,
cabeçuda,
pero sin perder la ternura.

(da série "micropunhéticas")



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sábado, dezembro 02, 2006



"Planet Caravan"...

e no ar uma mistura de aguardentes coloridas,

fumaças cuspidas,

tua-minha-nossa vida.

O carro não pára e eu dirijo sem olhar pra ontem.

Temos algumas notas amassadas, alguns maços de cigarros amarrotados, algum resto de torta de limão no canto da boca.

A noite passada que foi sorvida de forma fugazmente eterna, no etéreo, no stereo, no éter.

Capas de CD no porta luvas denunciavam trilhas perigosas, cartões de crédito lambidos, corisas pálidas.

Algo novo naquela foda nova, renovada, aditivada pelo vinho, pelo haxixe, pela coca.

E eu ainda ligado, guiando por estradas curvadas, olhando de soslaio tua coxa-curva, não paro o carro, não posso parar.

Há uma mão de ruína que pousa em meu ombro esquerdo.

Coisas loucas deixadas para trás.

Por isso correremos. A estrada à frente. Teu corpo e teu sangue.

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domingo, setembro 24, 2006



###A Grande Ressaca###

E, de repente, mendigos, cafetões, putas, vagabundos, boêmios, andarilhos e drogados tomaram a voz do “líder”, expulsaram seus assessores e conclamaram todos a derrubar os ícones.
O Velho Teórico ficou louco. Não havia previsto aquilo. Aqueles, segundo sua opinião, não poderiam ter a visão “mais avançada” da situação. Segundo o Velho, eles inevitavelmente nos levariam ao caos, à “anarquia” generalizada.
Uma puta de dezenove anos encontrou o Velho Teórico tentando se esconder atrás de 200 quilos de anotações. Ela deu um suave beijo em sua testa enrugada para, em seguida, disparar um tiro certeiro na marca de batom.
Os Homens de Vanguarda tentavam se abrigar no Grande Edifício dos Ícones, onde pediam ajuda aos Gordos Dirigentes. Ambos se abraçavam e praguejavam a petulância daqueles vagabundos.
- Isso fugiu de nossas regras. Eles estão atropelando a Irresistível Lei dos Fatos – disse o Homem-Mor de Vanguarda.
- Vocês incitaram esses vagabundos irresponsáveis! A preservação dos Sagrados Ícones deveria ser garantida. Não havíamos entrado num acordo sobre isso? – perguntava o Grande Gordo Dirigente.
Lá fora um potente movimento lúdico misturava luta armada com carnaval. O Mendigo Colorido subiu na sacada do Grande Edifício dos Ícones e, como primeiro ato revolucionário, leu poesias que fundaram a Constituição Poética dos Novos Tempos. E, no fim, decretou a morte do homo aeconomicus e do homo faber.
- A partir de hoje, declaremos a vigência plena do homo ludens. Vinho aos bons bebedores! – concluiu o Mendigo Colorido.
No interior do Grande Edifício dos Ícones, uma festa foi organizada pela Puta Perfumada. A Sociedade Lúdica inaugurar-se-ia “oficialmente” apenas no dia depois do imediato amanhã, que seria inteiramente dedicado à recuperação dos corpos no que entraria para a história como A Grande Ressaca.

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segunda-feira, setembro 18, 2006



K.

seu beijo é um verme perfumado
na língua carne crua de coisas não ditas.
sua pele é pálida quente cheia de gente
e meu corpo-parasita dela foi cuspido
e ainda se ressente da seiva sinuosa
que escorre por seus penhascos-coxas.




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Z.

ando impaciente,
presente-ausente,
uma sequência absurda de sins-nãos vertiginosos
que pulam da língua-lebre cheia de gosto luz,
de gosto quase,
quase-tudo por fazer,
devir...




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Y.


clara clara clara bóia

boca aberta

carne morta

coluna torta

clara clara claribóia

se atirou

se estilhaçou

se espatifou no lago

no lado

clara bóia

morta-torta



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sexta-feira, agosto 25, 2006



meus olhos fisgaram o peixe que voava,
azul.


meus calos calaram diante da estrada que corria,

em baixo dos pés.

meus dias raiaram roxos de tanto dizer noite,
em manhãs de sol.


e ainda assim havia rodas gigantes diante do meu ser.


(da série "nada a dizer em quatro frases", parte I)

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segunda-feira, agosto 21, 2006

((//>>noite quente de fevereiro<<\\)) Esqueceu o isqueiro do lado direito da cama de quarto de hotel de centro da cidade meia-noite. Apertou os cintos da consciência quando foi jogado num redemoinho de náuseas sorridentes. Peidou três vezes, e três vezes praguejou o controle remoto pifado da televisão estilo anos 80. Coçou pesadamente o saco achatado em cueca de promoção pague duas leve três. Emitiu um caloroso grunhido para si mesmo parabenizando-se por mais um ano de existência irônica. Deu mais um gole na imensidão translúcida de um copo matizado de dourado conhaque. No espelho viu os olhos de um velho sozinho numa noite quente de fevereiro. Fechou os olhos e se lembrou de que era um herói da cidade grande. Um anônimo e solitário chapado.

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segunda-feira, agosto 07, 2006

Confuso demais para sentir o destino se rastejando numa poça dágua escura, roto arame farpado de coisas quentes sóbrias cobras na paciência mórbida do meu tempo, só meu?, não sei, mas sim pode ser, e tudo, sintetizado num de repente, desaba no meio do vaso, sem que o dia jure algo além de lágrimas, lástimas, populares sem lares, olhares, milhares, e sem saída vou seguindo até a porta mais próxima, onde me deparo com o rápido sangue da vida que orgia pra lá e pra cá, sem cair, sem descompassar, e vive vivendo a noite temendo a morte, mas respirando e se esfacelando na única desculpa viável diante da incrível seqüência dos fatos: viver.

(tentativa de escrita automática – noite de segunda)


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segunda-feira, julho 24, 2006

amor
amo-te

a morte
amortece
a dor

amortecedor

amor
tece
a dor?

pra que rimar
amor e dor?

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amor é como um jogo...
se quiser entrar nessa, pelo menos saiba perder.

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